sábado, 30 de maio de 2009

Camisola Gertrudes

-BIGODE:

Tem vivente que é que nem melancia quente, é loco pra fazer mal pra alguém.
Lembro de um causo que me arremete às proezas do seu Alcides, casado com a Dona “Camisola Gertrudes”, Gertrudes de batismo, mas Camisola só depois de casada. Nunca ninguém soube direito sobre o fato, mas bocas grandes comentam que Camisola foi um acontecimento prá lá de verdade verídica.
Aconteceu que num tal de dia o velhinho levantou pé que te pé da cama e rumou prá bacia lava a cara antes de ceva o verde. Tudo dia era assim... Mas naquela segunda-feira depois do domingo no bolicho, ainda tava meio revesguiado das andança macanuda.
Quando se alinho na postura de homem, véio, mas de postura, viu um vulto vindo pros lado dele. Coisa horrível de feia, que o pobre teve vontade de se apinchá pela janela... Mas fico firme, que nem palanque em banhado. Deu de mão na tranca da porta e volto de ré, lôco pra fincá nas orelha do bixo. Sentiu os pelo arripiá tudo, da bica das orelha ao canto dos garrão. Quando viu, caiu mole no chão.
Bobo do véio, nem era uma assombração, acontece que ele levanto da cama corrido e esqueceu de coloca os óculos, no relance e sem as “lente de armação”, não conheceu a Gertrudes, que tava em pelo. A Véia tentou se explicar de tudo quanto foi manera, pois não queria assusta o véinho. Será que custava ela não andar pelada pela casa?
Depois do acontecido, quando o véio ficava bravo resmungava:
-“Camisola Gertrudes”...

É prego na bota...

domingo, 10 de maio de 2009

Os Versos..

_
Talvez eu pudesse dizer um verso romântico, não desses tolos que se vê a todo instante.
Seria romântico, mas diferente...
Talvez eu pudesse dizer um verso grande, grande verso, desses que se vê guardado na estante.
Seria grande, mas seria diferente...
Talvez pudesse dizer um verso que não fosse romântico, nem muito grande e nem declamado.
Seria um verso gritante, daqueles revoltosos que se diz na praça, cantado irradiante, na frente da autoridade, xingando o governante, em meio a lágrimas de justa raiva.
Seria romântico, grande e declamado, mas seria diferente...
Talvez fosse verso sem rima, cansado de tanto rimar, de tanto viver fingindo, de tanto correr prá viver.
Seria romântico, grande, declamado, verso rimado, mas seria diferente.
Diferente seria se pudesse dizer um verso que não fosse apenas verso, que não fosse somente romance, tampouco verso de se ter guardado na estante...
Talvez pudesse ser de alegria, mas que não fosse cantado e nem como os de sempre, que insistem em ter melodia, rima certa e marchas de bateria...
Talvez nem verso com rima seria.
Mas...
Meu verso seria sonho, com rimas da vida.
Não seria meu, de você, ou dele.
Seria diferente, pensado, escrito e declamado por nós.
Seria ele pra sempre um verso vivido por todos...
Quem sabe, o maior do mundo.
Dito a todos, aclamado por muitos, exaltado por milhares.
Seria, enfim, um livro, escrito com lealdade...
Palavra rimando com liberdade.
Prá ser grande, seria simples, nada de dificuldade.
Seria o verso da vida, que rima diferença com DIGNIDADE....
.
.
.
Dr. Cardoso
__________________________________________

JUNTOS E ENTERRADOS, MAS NEM MORTOS CALADOS..
__________________________________________

segunda-feira, 9 de março de 2009

E Assim Ela Se Foi...

.
.
EUGÊNIO SALLES...
.
.
.
Seus pais não acordaram, continuaram sonhando...
Não fez barulhos, poderia ser pega.
Seria melhor assim. Não gostaria que ninguém soubesse. Temia que não se importassem..
Poucas coisas na mochila..
Sim, ela fugiu de casa. Foi embora. Era Mariana, mas poderia ser Joana, Marcela ou Lucí. Do tipo das meninas espertas ou muito tolas que se vê por aí...
Não tinha certezas, talvez nem quisesse ter.
Acreditava em poucas coisas. O super-herói não era seu pai, nem sua mãe, tampouco a fada...
E assim ela se foi...
Prá nunca mais voltar..
Caminhava sentindo a brisa no rosto... Sorrindo brevemente, admirando, vivendo a liberdade...
Era maravilhoso, como não tinha pensado nisso antes, questionava-se Mariana.
Foi feliz por alguns dias, belos e demorados... Foram 16 anos sonhando com um momento como aquele..
Lembraria para sempre do que encontrou pelas ruas.
O Russo Stalinovski, que atirava facas, cuspia fogo e saltitava malabares; Anita, a italiana que contava histórias de Castelo, afirmando sobre um caixote, que tivera sido Princesa do Reino de Maragosa.
Voltaria no tempo, só para sentir o prazer de ouvir os versos do apaixonado Pirata Poeta...
Mariana quase não acreditava que estava vivendo tamanha emoção.
Sentia-se livre. Como era fascinante ser autora de sua caminhada. Não seguir caminhos prontos, não ter parada.
Começava a entender sobre o poder que seu pai tanto lhe explicava. Se bom era mandar no próprio nariz, quanto melhor não seria mandar no nariz de toda a gente que avistava na estrada?

E assim Mariana Fugiu de casa. Não estava tão triste como naquela manhã raiada. Mas ainda não estava satisfeita, precisava descobrir a que fim levava aquela estrada...
Por dias procurou atônita todas as possibilidades, da alegria incontida, até a dor do choro amargurada...
Queria tudo. Ali, naquele momento, naquele minuto, segundo...
_
Nunca mais iria voltar...
E assim ela se foi...
Seus pais, é claro, acordaram, mas Mariana se encarregou de continuar sonhando por eles.
Viveu anos de perguntas inacabadas e incompreendidas. Caminhando só e sem parada. Foi assim que iniciou, e assim que iria terminar.
Alguns pedidos, muitas histórias, vários romances...
Percebeu enfim, que as estradas levavam a vários finais e possibilidades, e isso prá ela já bastava...
Lhe encantava o caminhar, o conhecer, até mesmo o fugir...
Mariana percebeu que sua estrada deixava poucos rastros, e isso não lhe entristecia.
Ninguém vive para ser notado, mas sim, para que sua falta seja sentida, pensava ela...
E assim continuou por dias, meses, anos..
Sempre conquistando o que ninguém imaginaria..
Sua vida não teve barreiras, foi marcada pela audácia..
Existiu somente um momento em que Mariana se deparou com o peso da idade e pensou na dor...
Mas estamos falando de Mariana amigos, que sabia que não se vive, nem se morre em vão...
Ela se foi e, de fato, nunca mais voltou. Não precisava, Mariana sabia a direção a seguir. Isso lhe bastava...
Era Mariana, mas poderia ser Joana, Marcela ou Lucí. Do tipo das meninas espertas ou muito tolas que se vê por aí, que demoram a compreender que o passado se constrói a cada novo amanhã e que a Vida é muita breve pra ser desperdiçada
...

__________

VOLTAREEEMOOSSS...
__________

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A Princesinha..

.
.
RICARDO CARVALHO:

_
A Histórinha de Amor começa assim..
Existiam três amiguinhos, melhor não, histórias românticas de meninos e meninas são tão cansativas. Legal mesmo são animaizinhos, as mulheres adoram, lembram romance que elas tanto desejam...
Bom, eles moravam todos na floresta. O leão Galileu, o sapo Manuel e o burro Everaldo...Galileu o destemido, Manuel o envergonhado e Everaldo, o estabanado astrônomo, que disse não gostar de romances e que não conseguiu chegar a tempo de participar da historinha..
Como em todas as historinhas, existia é claro, a princesinha da floresta..Era linda, a mais linda de todas, superiormente linda. E mais que isso, além de linda, como em todas as historinhas, era ela tão querida e dócil..
A princesinha conheceu primeiro Galileu. Como era forte, ágil e inteligente galileu, era tudo que ela sonhava.. Como em todas as historinhas, eles se apaixonaram..Era o amor tão bonito e encantador..A princesinha flutuava.Mas logo galileu mostrou suas garras, tratava muito mal a princesinha e o romance teve de ser finalizado...
Manuel o envergonhado tratou logo de se aproximar, pois como em todas as histórinhas, a princesinha, mais cedo ou mais tarde, beijaria o sapo, na esperança de ele ser o príncipe..Numa manhã de sol, num lindo dia de janeiro ela se encantou com a humildade e simpatia do sapo. Paixão a primeira vista..E assim, como em todas as historinhas de amor, eles foram felizes pa....
Espera aí, vocês não querem saber do burro Everaldo?

______________
Bom, continuando de onde paramos...
Numa linda manhã de sol, num lindo dia de janeiro, o sapo e a princesa se beijaram. E eles foram felizes somente na outra história, finais felizes me cansam demais.. Nessa que eu conto, eles foram felizes somente por alguns dias, pois o sapo Manuel não teve seu encanto retirado. A princesa desistiu de beijá-lo.
Ahhh, Everaldo?
Sim, Claro...
Everaldo não aparaceu. A "Circunstância" que necessitava para conhecer a Princesinha, superar o medo e se aproximar dela, descobrir o encanto escondido na beleza do amor, não existiu, e ele se quer pode sonhar que esteve um dia ao lado dela.
Everaldo e a Princesinha não se conheceram. e não me digam vocês, caros leitores, que como em todas as historinhas, eu como escritor, posso dar um final mais felizinho para ela. NÂO... Essa não é uma historinha como todas as outras, nem esse um romance ideal.
Por incrível que pareça, ela ainda não tem fim.
Pois, a Princesinha, continua a vagar pelo mundo a procura do príncipe e, Everaldo, o astrônomo, continua esquecido nas noites a observar as estrelas. Talvez um dia a Princesinha, apareça para ele...
(A história é uma dádiva, carregada de surpresas.. escreva a sua e se você ver a princesinha por aí, diga que, melhor não, não diga nada..éé)


______________
voltareemosss
______________

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Novo Integrante

.
.
BIGODE..

_

É bom que se explique, prá mode de não dá mexirico, que demorei 79 dias na viagem por causa desse trumbudo derrame d’água que não cansa de caí na região.
Sim, pois, não que tivesse medo, longe de mim, mas daquela feita tava eu solito no mais, lá no meu rancho, quando do nada se armo o temporal. Tinha cara feia de Nabuco, jeito estranho de Adamastor, imponência duvidosa de Joaquim...
Foi que dei de ré, pé que te pé. E repensei os plano de cruzá o Rio Grande e deixa a querência. Dois dia prá calma a tal de chuva, mais dois prá seca meus pelego e mais três prá garra vontade e bolear a perna no burro Aníbal, companheiro de façanha...
Verdade seja dita, toda semelhança por morar em Bagé, Terra do tal analista, terá sido mera coincidência. De fato, nem faço conta daquele quera de meia pataca, que largo mão da lida, prá virá “analista”.
Mas que esperança! Aonde vai pará nosso Rio Grande...
Bueno, foi dessa feita que abandonei o rancho e me apinchei prá tal cidade Catarina. Sim, porque quando eu resolvi corre o mundo não tinha preferência por paradeiro, não fosse o aviso que encontrei no dito jornal, dos home desse tal “Buraco” procurando um escritor refinado e com experiência prá com eles trabalha.
Pensei com uns pouco parafuso que ainda funcionava: “se apilixe gaudério, largue mão de frescura e se finque, errado duvido que alguma coisa pode dá. Prá quem tá acostumado fazer versinho prás moça e charlá com as guria da campanha, esse tal ofíco de escrivão difícil não pode ser”.
A viagem foi longa barbaridade. O Aníbal, male mal fazia hora de anda uns quilometro e já pedia arrego, tendo eu que parar.
Mas que nada vivente, se eu te conto que sempre tinha duas idéias, tu periga não acredita. Elas não eram as únicas, mas me perseguiam com maior vontade. A primeira eu não lembro, e a segunda faz tempo que não consigo achar.
Mas eram uma idéias buenachas chê, pra lá de macanudas, digo, interessantes. (Os homi chefe do jornalês exigem um palavreado mais cultivado, eu confesso que me esforcejo bastante, mas não tá fácil amigo velho).
Afinal, antes que dê encrenca, é bom logo esclarecê. Não gosto que me perguntem e muito menos de respondê, assim como não gosto que me duvidem, menos ainda que me mandem.
Pouca coisa me assusta e mesmo o que me assusta eu não posso conta, pois gaudério que se preze não sente medo. No máximo, às vezes sente é o arrependimento a batê... nada que saculege as prega da bombacha ou derrube a erva do mate.
Bueno, mas vamo afivelando o barbicacho e contando o motivo maior de nossa presença por essas bandas. Temo idéia de colaborejar e contar uns punhados de história que vimo acontece pelo mundo afora. Disse: causo e história, nada de mintira e aumentação.
Eu volto, mas só depois que descansa, porque 80 dia em cima de um burro não é fácil de aguentá...
____________________
VoltaremoOs....
.
.
.

domingo, 30 de novembro de 2008

A Mentira Chamada Amor...

.
.
.
Mas que belo sentimento é esse chamado AMOR?
A que todos elogiam, todos fazem juras e todos prometem sacrifícios?
Será que esquecem e fingem não saber que por detrás dele está a MENTIRA?
Sim, quem nunca aqui percebeu ou se utilizou de uma pequena artimanha, que troca de nome, de lugar e sentido, mas no fundo, no fundo, continua sendo uma grande enganação...?
Existem os que vangloriam essa grande utilidade do AMOR, o superior comportamento de quem está amando, a irreverente possibilidade de se sentir apaixonado...
Amor e Mentira caminham juntos...
Sim..
Quando encontramos o amor, mentimos pra nós mesmos que ele é perfeito...
Quando o amor não é perfeito, mentimos pra nós mesmos que ninguém é...
Quando nos decepcionamos com o amor, mentimos pra nós mesmos que foi só dessa vez...
Quando vivemos um amor, mentimos pra nós mesmos que será para sempre, mesmo sabendo, que o para sempre, sempre acaba...
Quando a pessoa amada não está tão linda quando ela imagina, mentimos pra nos mesmos que ela está maravilhosa...
Quando sentimos ciúmes da pessoa amada, mentimos pra nós mesmos que foi só por momento...
Quando o amor pergunta se existe maior sentimento que ele, mentimos pra nós mesmos que não tem ninguém a sua frente...
E sem dúvida, a maior mentira de todas...
Quando o amor vai embora, mentimos pra nós mesmos que foi melhor assim, e
nunca mais irá acontecer...
_
A sinceridade é a grande estraga prazeres do Amor, ela vem e acaba com tudo... derruba com os sonhos, com os planos e com os desejos mais profundos...
_
A muito tempo conheci um cara, que hoje é meu grande amigo, o nome dele era joão...

Ele contava a história do grande amor da sua vida, mas lembro somente do final dela, era assim...
O nome dela era Maria..
certo dia João encontrou Maria e ela disse que precisava conversar com ele, e que acima de tudo necessitava ser SINCERA... precisava lhe falar que existia outro com quem se encontrava nas noites passadas e ela não desejava mais mentir para ele...
João sempre me dizia, no momento que terminou a MENTIRA, terminou nosso AMOR, A sinceridade termina com todo romance...



"Ricardo Carvalho" (Não sou um homem amado, nem ao menos esquecido, sou talvez alguém que não gosta de ser enganado, mas que adoraria ser iludido, pois, uma mentira não faz mal a ninguém...)
__________________

.
VoltareemoOs...
..
..
..
..
..
..
..
..
..

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Da Redação...

.
.
O motivo de algumas semanas ausentes é justificavel, ou melhor, tentaremos justificar.
Não sendo fácil, nem tão pouco simples passamos alguns dias avaliando as possibilidades de mudanças no conteúdo de nosso BURACO. E assim, depois de noites em claro e dias de sonolência, após uma forte chuva que alagou nossa redação, posterior a mais uma desilusão amorosa de nosso querido amigo Ricardo Carvalho, anunciamos sem mais adevéras o mais novo membro que passa a colaborejar conosco. apresentamos....
.
.
.
"BIGODE.."


(em breve)



_____________________
.
.
.
Voltareemooss
.
.
.
.
___

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Carta de Apolônio

.
Eugênio Salles:
.
_PS: Acabamos de receber a última das correspondências desse intrigante rapaz que por dias foi nosso protagonista no Buraco. Fomos aos poucos tomados por esse sentimento melancólico que se tornou intrigante e envolvente. Apolônio pode ser descrevido como um eterno questionamento. Assim como seu nome, ele não é um rapaz comum, com sonhos comuns ou uma vida comum. Nesse triste clima de eleição resolvemos por unanimidade em 3 votos a 1, (Doutor Cardoso disse não concordar com a Democracia e anulou seu voto) transcrever na íntegra a última das correspondências de Apolônio Sideral, filho de madalena com um homem qualquer, num dia qualquer de um ano qualquer, vivendo uma rotina qualquer..
____

“...É madrugada. Chove. Estava sozinho e num leque de sensações resolvi escrever a vocês meus amigos, que a alguns dias cismaram em transcrever minhas paixões, tristezas e opiniões, transformando elas em histórias. Sou grato pela consideração e por me recepcionarem na visita ao seu “buraco” naquela noite de fortes etílicos...
Quero aqui, bradar aos ventos o que por dentro me corrói...
Talvez ninguém descubra o segredo da vida ou a certeza do fim. Faço votos que isso, de fato, nem aconteça. Não sou um rapaz vibrante e sorridente, mas estou longe de parecer triste ou decepcionado. Acredito no desconhecido, no impossível, no incompreensível e inexplicável sentimento chamado esperança. Encontro-me nessa manhã em mais um início de rotina. Começo mais uma semana na incerteza de ver o fim dela. Mas isso não me faz abater.
Em silêncio analiso minha vida. Percebo o quanto me tornei adulto para não me surpreender com o novo e tão pouco me alegrar com a criatividade.
Poderia aqui mentir ou aumentar minhas histórias. Poderia fingir ou esconder minhas verdades e pensamentos. Poderia tanta coisa que não sei se seria capaz. Falam tanto do poder não é? Pra mim o poder é uma forma de ordenar o que não se pode conseguir, sendo muito mais uma demonstração de fraqueza do que de força.
Se fechado no silêncio posso nada, se suprimido em meus versos posso menos ainda, Se trancando em meus sonhos cancelo minhas expectativas, viajo na imagem dos prazeres da donzela de minhas noites esquecidas.
Sabem amigos o que falo do amor? Não falo nada. Imagino, somente imagino. Como é possível viver e pensar tão distante na lembrança e na presença tão próxima desse sentimento que sofre e alegra?
Não devo chorar, penso que não posso fugir, eu quero o que ninguém pode impedir...
Aos muros e grades meu repúdio. Aos palácios e reis, minhas condolências. Aos covardes meu esquecimento. A distância minha indiferença.
Espero que em breve voltemos a nos corresponder e conversar, por momento encero minhas correspondências, talvez decepcionando a vocês por não poder contar um belo e encantador final feliz, mas acontece que é inicio de semana, e devo seguir minha rotina...

Apolônio Sideral.
______________________
.
(Voltareemos)
.
______________________

sábado, 25 de outubro de 2008

Apolônio e o Crime de Outubro

Doutor Cardoso:
.
.
Não trazia mais nada que o prendesse a alguém ou algum lugar. Há três dias que não comia, não por falta dela, mas sim pela opção de não se alimentar...
Há três dias que bebia só água, na crença cega de manter-se lúcido. Estava fraco, quase sem forças para resistir a insanas tentações que pudessem aparecer.
A bucólica vida moderna lhe acentuava o sentimento de solidão e decepção perante o alvorecer de cada dia. Sentia-se sozinho, isolado, distante de qualquer relação de harmonia ou amizade.
Aproximava-se o momento derradeiro e ele não se satisfazia nem tão pouco se entusiasmava. Mas a decisão era necessária. Apolônio tornara-se frio, cruel, impiedoso e sem adversários que pudessem lhe causar medo, muito menos derrotá-lo.
Estava decidido, ninguém o deteria ou o faria mudar de idéia. Seria breve, mas não deixaria rastros nem provas. Estava determinado a cumprir mais um dos seus deveres.
Chegou no local marcado e percebeu que seria ali, naquele momento que mais um acontecimento faria seu nome entrar prá história. Para sempre se lembrariam dele por aquele ato malévolo e inconseqüente.
Apolônio tentava esquecer-se disso...
Adentrou no recinto, onde algumas poucas pessoas faziam um burburinho. Ficou parado, analisando. Pensou consigo mesmo...
- Desde cedo havia aprendido a ser bom, honesto e justo. Aprendera, logo cedo também, que esses conceitos dependeriam das circunstâncias, da necessidade ou dos interesses em pauta.
Não fora fácil para ele se decidir pelo mundo sanguinário. Essa vida por vezes era triste e cansativa. Sentia-se atordoado...
Era jovem, filho único, de família humilde, assalariada. Tinha apenas 16 anos de idade quando seu pai, em meio às dificuldades, com voz rouca e cansada pela insensibilidade dos tempos, lhe disse com inconfundível sabedoria:
- O futuro está em suas mãos, a decisão deve ser tomada. Você terá de optar...

Aquilo lhe suava sarcasticamente aos ouvidos toda vez que exercia seu dever... Lembrava-se das palavras do velho e sentia suas mãos suarem frio. Mãos que seguravam a arma, pronta, engatilhada. Era como se uma gravação soasse em cada história que finalizava.
Estava próximo outro momento derradeiro e Apolônio sentia-se poderoso em ver o destino de milhares sob sua jurisdição. Sentia-se forte. Sentia-se grande.
Mas após cada “serviço”, percebia a crueldade lhe pesar sobre os ombros e sentia a responsabilidade lhe cobrar respostas no breve momento em que o novo dia amanhecesse.
Era domingo. Seria necessário maior frieza para mais essa “tarefa”. Seu segredo era concentrar-se..
__
Deixou de lado os devaneios e prosseguiu. Caminhava leve e calmo em direção de seu alvo. As pessoas silenciavam ao ver seu nervosismo. Ele não se importava e pouco a pouco a distância diminuía. Entrou na sala onde deveria exercer seu papel. Olhou em volta, apenas três testemunhas o observavam. Fingiu não vê-las. Aproximou-se do alvo. Estava trêmulo e, aos olhos das testemunhas, aparentava medo. Fechou os olhos. Mirou. Apertou as duas teclas necessárias. Percebeu a imagem que lhe causava repúdio. Confirmou...
Saiu da sala imaginando como era cruel, acabava de cometer mais um crime contra si próprio, era como se sentisse seu sangue escorrer pela garganta. Acabava de enganar-se a si mesmo. Estava farto de acreditar na crença tola que tinha acabado de legitimar. Mas como todos diziam que era seu dever, estava ele obrigado a optar, mesmo sabendo que estava obrigado a entregar seu destino nas mãos de falsos sábios da retórica e do bom discurso.
Podia ser preso naquele momento. Acabava de ter sido obrigado a cometer mais um crime contra si próprio. Fora obrigado a entregar seu destino.
.
.
.
.
___________________________
.
Voltaremos
___________________________
.
.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Apolônio e o AMOR

.
RicArdo CarvalhO:
.
.
.
Apolônio não era um jovem que despertava interesse nas garotas. Era robusto, mas não tinha o charme nem as palavras necessárias para a conquista desejada. Tinha o olhar cansado e o andar calmo. Era a legítima expressão de uma pessoa tranqüila. Vivia na solidão de seus pensamentos, rodeado pela alegria de seus sonhos. Era breve nas palavras e mais breve ainda em seus relacionamentos. Afirmava ele:

-já dizia o poeta, “as mulheres tem instinto caçador e fazem qualquer homem sofrer”.

Tinha criado sua própria conclusão, que se intitulava “Filosofia Apoleônica do Amor”. Segundo ele todo relacionamento devia ser breve, pois a melhor parte do romance se encontrava na conquista e no descobrir a novidade em cada pessoa.

Ele tinha sua atitude, sua interpretação e até sua filosofia, mas o que poucos sabiam é que Apolônio escondia um grande e irremediável amor. Era seu encanto das noites esquecidas, e das manhãs irradiantes. Ela era a perfeição, assim como todo amor deve ser. Ela era o amor que jamais imaginará ao seu lado, era a rainha, a deusa, a dona de seu desejo.

O que magoava Apolônio era saber que em seus braços a donzela jamais sonhava estar, tornando-se para ele um amor quase esquecido que pestanejava em seu peito

Foi certa feita que Apolônio, nosso herói da filosofia romântica, acordou para o mundo com a inspiração de todas as manhas. Mas aquele dia soava diferente aos seus desejos, e até o ressoar do vento fazia eco suave aos ouvidos do apaixonado. Apolônio lembrara-se que estava de folga e decidiu caminhar ao encontro do nada, sem preocupações, apenas em favor dos devaneios tolos de seus sentimentos.

Andava breve e calmo, sorria, pestanejava, falava sozinho... Imaginava que se naquele momento avistasse sua musa, não hesitaria em beijá-la. E foi então que soltou a frase que prendia ao peito:
-Benditos deuses dos sentimentos que se manifestam ao inesperado, permitam ao pobre jovem, de coração tolo e desejos desesperados. Façam surgir em meu olhar o encanto do romance inesperado, façam surgir ao meu lado a donzela que por ela tenho chorado...
Foi então que ouviu atrás dele a doce melodia das palavras que a ele se referiam:

-Conversando sozinho moço?

O coração do pobre jovem disparava e as palavras se perdiam, o olhar ficava embasado e as conclusões pareciam não verdadeiras. Era ela, sim caros amigos, a musa soberana, a rainha, a deusa dos seus sonhos. Ardiam aos anseios de Apolônio e lhe saltavam as pestanas e seus desejos mais secretos e profundos...

Pensava, imagina. Como agir? Como não agir? O que fazer? O que não fazer? E agora? O que faria ele com sua promessa de beijá-la no mais breve momento que a avistasse?
Não hesitou...

Foi virando-se aos poucos, de maneira calma. Erguendo seu olhar, fazendo um movimento breve, encarou a linda moça sem dizer uma única e simples palavra, aproximou-se de seu corpo, segurando pela mão da donzela. Aproximando-se mais ainda já sentia o perfume que ressoava ao coração. Aproximando-se mais ainda sentiu fechar seus olhos e o calor de sua boca ao encontro dela, seria o momento, o local, a hora, o minuto, o segundo em que Apolonio...
...BBBBBBBBrrrrrrrrrrrããããããããããããããããããããã...
...Maldito despertador que fez Apolônio acordar do sono e perceber que já era segunda-feira, ele deveria ir trabalhar...
.

.
.
.
______________
(..VoltaRemoOos..)